Uma corrente de estórias que ficam na minha história!

fevereiro 24, 2005

Isto não se faz...

É com a alma apertada e o coração a sangrar que me atrevo a contar-vos o que presenciei.
Passou-se durante uma festa, mas foi tão marcante, que ainda hoje tenho pesadelos quando penso no que vi.
Caríssimas(os) o que aqui fica relatado não é mais do que o fruto desta civilização, devassa, desgovernada e global em que estamos mergulhados e perdidos. O que aqui fica relatado é um atentado à integridade de qualquer um enquanto ser livre. O que aqui fica relatado é o conjunto de atitudes que de cívicas nada têm e de comportamentos socialmente reprováveis. O que aqui fica relatado é, por fim, o desmoronar de todo um mundo de fantasia em que fomos criados. Preparem-se porque o que aqui vai ficar relatado é grave, triste, inadmissível e perturbador.
Considerem posta uma bolinha vermelha no canto superior direito do vosso monitor. Aos cardíacos e mais sensíveis desaconselha-se veementemente a leitura deste relato. Aos mais afoitos recomenda-se uma caixinha de lenços de papel ao lado e um xanax à mão em caso de necessidade.
Então foi assim...
Ela entrou ondulante no salão. Provocante, já se vê. Linhas perfeitas num corpo perfeito. Pele luzidia, rabo sinuoso e grande. Passava e ondulava. Deixava atrás de si o perfume característico de fêmea que se quer desejada. Os machões no local mediam hipóteses e sonhavam delírios. E ela passava, requebrando, agitando a multidão máscula. Propósitos pouco católicos é certo, mas era uma senhora. Mamas de fora, é certo, mas lindas, perfeitas. Um monumento de sensualidade.
Encostou-se ao balcão e, com voz forte mas segura, pediu uma cerveja. Bebida pouco recomendável a uma "lady", mas ninguém levou a mal. Sentou-se em gestos provocatórios e a beleza realçava mais quando cruzava e descruzava as esguias pernas em gestos de ardor. Os machos rodeavam-na com olhares lascivos de desejo.
Não tardaram os comentários entre dentes mas audíveis apesar do barulho da música:

-Ganda vaca!
-Boa comó o milho!
-Éh pá... olha-me pr'àquelas tetas, pá...
-Que monumento, aquilo não é uma vaca, é uma vacalhona.

Eu ouvia, discordava e reprovava aqueles juízos. Quando muito seria uma vitelita inexperiente. Arriscaria mesmo, que seria a sua primeira vez de exposição pública em semelhantes preparos.

Ela levantou-se, dirigiu-se à pista de dança e, em requebros provocantes, foi abrindo alas por entre roços e apertos dos menos comedidos. Abandonou-se frenética aos ritmos quentes do samba. Quebrava e requebrava nos ritmos exóticos. Ondulava odalisca em danças púbicas e mexia profundo nos desejos porno dos que a observavam. Estava positivamente de cornos no ar. O seu rabo fazia rodopiar olhares tontos, extasiados e as mamas ao léu, suscitavam os mais pecaminosos desejos. Era a rainha da pista. Só e abandonada aos seus encantos, rapidamente atraiu uma pequena multidão de tarados à sua volta. Aumentaram o tom e o ritmo dos comentários e não tardaram a chegar os convites mais ousados:

- Deixa-me cobrir-te minha vaca.
- Que lindo rabo tens, minha vaquinha louca.
- Deixa-me mugir-te essas tetas lindas.
- Não queres dar o litro comigo? Olha que eu sou meiguinho.
- Punha os cornos à minha gata contigo, vitela dos meus sonhos.
- Deixa-me passar-te a mão pelo lombo, deixas?
- Que chicha tão boa a tua, deixa-me comer-te.
- É contigo que sonho todas as noites.

Eu, apreensivo, observava. A coisa só podia dar para o torto. Tanto mais que ela, irrepreensivelmente senhora, não ligava e ondulava cada vez mais aquele naco de anca provocativo.
Estava a gostar, claro. Quem não gosta de ser adulado e o centro de todas as atenções?

Eis se não quando, ela desaparece do meu horizonte, afundada na corja que à sua volta se juntou. "Coitada", pensei. As tropelias que lhe irão fazer.
E tinha razão, meus caros, infelizmente tinha razão. Tudo ao molho, ou cada um por sua vez, todos a assediaram e apalparam e abusaram e nela se esfregaram.
Chocou-me vê-la assim, indefesa no meio da corja de abusadores bárbaros, sem princípios nem respeito por uma "lady", por muito vaca que parecesse ser.
Agarraram nela e, em orgias de alegria, lá a iam mandando ao ar acompanhando o triste ritual com grunhidos fortes. Cenário constrangedor.
Ela, coitadinha, vendo-se atirada para aquele turbilhão de malfeitores, indefesa e em perigo, com grande altruísmo, lá ia fingindo que eles lhe estavam a ensinar novos ritmos e lá fazia crer que os aprendia, sabe Deus à custa de que sacrifícios. Manteve-se com grande carácter e personalidade, sofrendo todas as sevícias, esboçando, a custo, o seu mais fingido ar de divertimento e, sensualmente, como só uma senhora o sabe fazer, lá ia soltando uns indeléveis gemidos de contentamento.
Mas, senhores, o que mais me chocou foi o facto de ali, naquele instante, à vista destes que a terra há-de comer, ver desmoronar todos os meus sonhos e fantasias de criança quando, abismado e sem palavras, vejo o Pato Donald a apalpar as tetas à mocinha.
Isto para já nem referir as atitudes pornográficas do Peter Pan e de nem sequer me passar pela cabeça contar-vos o comportamento do Corcunda de Notre Dame. Deplorável, simplesmente deplorável. Um atentado aos costumes e boas maneiras.
Julgava eu ter acabado de ver ruir o mundo à minha volta quando, sem esperar, fiquei gélido ao ver a abelha Maia e a Pipi das meias altas a fazerem convites indecorosos à pobre e massacrada criatura. A minha forte formação moral impede-me de vos mencionar, sequer, as atitudes inenarráveis que o gato Silvestre (muito amigo do Piu-Piu, vejam bem) teve perante o acontecido. Em vez de apaziguar ânimos, exaltou-os e exaltou-se a ele.
Tudo isto, senhores e senhoras, nas barbas de um bispo que, embriagado de alegria, abençoava o decorrer dos acontecimentos.
Não aguentei mais e cai para o lado. Já não se pode confiar na herança cultural dos bonecos animados dos nossos tempos.
Anda tudo passado. Já não há moralidade.
Para testemunhar o meu vivo repúdio por atitudes tão deploráveis, aqui fica a foto da pobre mocinha, vandalizada no seu mais recôndito âmago. Ainda bem que acabou o baile de Carnaval.
Não deverá haver psiquiatra que lhe valha, tal o estrago psico-emocional que lhe foi inferido... coitadinha. E depois perguntam vocês como é que as vacas ficam loucas...


Antonio San
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