Uma corrente de estórias que ficam na minha história!

fevereiro 04, 2005

Apelo à solidariedade dos amigos

A freira (pitosga) falava, falava, falava. O grupo de reclusos e técnicos ouvia com atenção. Havia uma série de livros, terços, medalhas, porta-chaves, santas e posters para serem distribuídos pelos rapazes. Pouca coisa comparada com o muito que se pode encontrar na paz espiritual.
E lá ia falando a freira (pitosga) para deleite da audiência, até meu, confesso.
- Agora vou pedir-vos o vosso número e nome para vos podermos escrever, está bem?
E lá foi ela, armada de papel e caneta, de cadeira em cadeira, falando com cada um, dando uma palavrita aqui, outra ali, um sorriso maternal a este, outro àquele.
Eu, enroscado na cadeira, sentindo um frio de rachar, braços cruzados a tentar impedir a saída do pouco calor que o blusão aprisionava, cachecol enrolado ao pescoço como tampão, mas até me sentia em paz e bem comigo mesmo.
- Então meu filho, diz-me lá, qual é o teu número e o teu nome?
- Eu???? Mas… mas eu não sou recluso!
- Todos somos reclusos de alguma coisa na vida, meu filho, eu imagino que deva ser penoso, por isso é que te queremos escrever.
- Mas eu não sou…
Ela olhou para o meu colega, devidamente identificado, por ela, como não recluso, pela alegria do olhar (têm cada uma...), como quem pede confirmação do que eu dizia.

O sacana, em sussurro, tirou-lhe as dúvidas todas:
-Ele é muito revoltado irmã. Um caso muito complicado. Ainda não aceita… percebe?
E piscava-me o olho sorridente, em gestos escondidos do olhar confundido da freira (pitosga).
Para ajudar à festa (que nestas coisas os amigos estão sempre lá para dar apoio), os mastronços dos professores de educação física, lá iam debitando mais e mais na minha já precária situação. A freira ouvia atentamente, olhava para mim de soslaio e abanava a cabeça com ar piedoso de pena.

Arrastei-me até ao carro como pude. Ego desfeito, interior despedaçado, força anímica para lá da reserva.
Olhei-me no retrovisor e não reconheci a mesma cara que tinha visto ao espelho da manhã. De repente aquela barba de dois dias, ao estilo Jorge Coelho, deixou de estar na moda e de me dar um ar intelectual. Passou para lá da fronteira do indigente. As rugas de expressão, que tão bem me ficavam, eram crateras sem fundo. Para ai umas quinhentas e tal. Estava pálido, esquálido, uma sombra de mim mesmo.
Como pode uma freira (pitosga) destruir-nos em tão pouco tempo?

Felizmente o carro já sabe o caminho até casa e ainda bem, porque se dependesse só daquilo a que me reduziram, teria galgado a primeira berma da estrada.

Gatinhei até ao espelho da manhã com esforço e alguma esperança, mas já não estava encantado, mostrava-me o mesmo indigente em que me tinham transformado.

Recobrei alguma auto-estima e folheei avidamente as páginas amarelas… clínicas….rejuvenescimento…. liftings…qualquer coisa…
- Tem a certeza que é assim tão caro???.... ahhh, não acha caro??? …. Promoção de Inverno a esses preços??? Está a brincar comigo, não... E uns botockzitos, quanto custam? …TANTO??????

Amigos, estou em desespero, entrei em depressão e em depressão não posso contribuir para a recuperação deste país. Estou um caco (segundo opinião não expressa verbalmente pela freira pitosga), teso e sem capacidade de me reencontrar.
Apelo à solidariedade de todos. Abri uma conta na CGD para que possam contribuir com o vosso vil metal para uma causa nobre e santa: a minha paz de espírito e o reencontro comigo mesmo.

Se for preciso, até crio uma fundação para o efeito e passo-vos um recibo a dizer "donativo" para descontarem no IRS.

Passem esta mensagem a todos os vossos amigos e terão as bênçãos da freira (pitosga).

Não passem e terão rugas sem fim e uma freira (pitosga) a pedir-vos o nome e o número para vos escrever longas cartas, todos os dias, com envelopes selados para a resposta, até ao fim dos vossos dias.
E, já agora, avisem o Jorge Coelho que barba de dois dias já não está com nada e que evite receber freiras (particularmente as pitosgas) em qualquer estação do ano, especialmente no Inverno.

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